Pode parecer esquisito, mas a crise mundial está sendo causada pela inadimplência dos estadunidenses, principalmente quanto ao pagamento da hipoteca de suas casas. Ou seja, os financiamentos imobiliários.
Quando empréstimos começaram a ser praticados, as pessoas precisavam oferecer alguma garantia de que o financiamento seria pago. Quem quisesse financiar um carro tinha que ter algum bem ou reservas cujo valor, no mínimo, igualasse ao do bem a ser adquirido. Caso a dívida não fosse paga, o banco executaria a dívida e pegaria o bem que estivesse sido dado como garantia. É aquela história, os bancos só te emprestam dinheiro se você provar que não precisa dele. Esse tipo de crédito é chamado de Prime (algo como Superior ou Ideal) e não é o responsável pela crise.
Com o (aparente) avanço nos sistemas de cobrança, de proteção ao crédito e de avaliação dos riscos, o crédito foi se estendendo a pessoas que não tinham essas garantias. Esse é o tal do crédito do sub-prime ou ‘abaixo do ideal’. Nessa modalidade de crédito a garantia de que o financiamento será pago é o próprio bem adquirido. Se o cara compra uma casa, a casa é a garantia de pagamento. Se ele não pagar, o banco toma-lhe a casa que ele pretendia comprar. Isso existe também no Brasil. Tem o crédito com garantias e o crédito sem. Se um brasileiro que comprou um carro parar de pagá-lo, o banco toma o carro, normalmente não há outra garantia nesses casos.
Pausa para esclarecimentos – A impressora do Tio Sam
Desde o início da década de 30, os EUA dependem muito do crédito para injetar dinheiro na economia. Foi, se não me engano, em 1931 que o governo dos EUA decidiu desvincular sua moeda de seus estoques em ouro. Antes disso, as notas de dólar tinham escrito algo como ‘exchangeable in gold’, ou seja, trocável por ouro. O banco central norte americano possuía em ouro a mesma quantia de dólares emitidos. A partir da década de trinta, a moeda americana deixou de ter lastro.
A idéia é que cada vez que se precisasse de dinheiro na economia, o Tio Sam ligava a impressora, independentemente de haver ou não lastro, e emprestava com juros de 0,02% ao ano essa quantia aos bancos particulares. Isso gera uma pergunta: Se todo o dinheiro existente foi emprestado com juros, de onde sairia o dinheiro para pagar a primeira dívida (dos bancos com o FED - BC dos EUA)?
Voltando à crise
Bom, ocorreu que o crédito para quem não tinha garantias foi se ampliando, ampliando e ampliando sob as perspectivas dos bancos de ganharem muita grana. Como havia muito crédito imobiliário disponível, os americanos foram à forra. Começaram a comprar casas enormes e caríssimas para pagamento em 60 anos, e isso deixava as prestações pagáveis. Tornou-se comum pessoas de classe média morarem em casas de mais de 1 milhão de dólares.
Quando todos tinham esse crédito disponível, pela lei de oferta e procura, ocorreu um fenômeno de super valorização das casas. Havia o crescimento do interesse e do crédito no mercado e, ao mesmo tempo, o número de imóveis não aumentou tanto. Os preços foram nas alturas.
Quando as pessoas começaram a não pagar suas dívidas, os bancos começaram a executá-las e tomar as casas de volta. Pois bem, a casa não interessa para o banco, mas sim o dinheiro que ela vale. O banco tomava a casa e a punha a venda para recuperar o dinheiro (aqui no Brasil esses bens vão à leilão, não sei como é por lá). O que ocorre depois disso? Muitas casas começam a ser devolvidas e postas a venda. Aquela história de oferta e procura se inverte, começa a existir muitas casas no mercado (de pessoas inadimplentes) e o valor dos imóveis começa a despencar.
Pronto, imagine que você comprou uma casa de 1 milhão de dólares para pagar em 60 anos. Depois de 4 anos pagando (quase nada da dívida estará paga) a sua casa passa a valer 500 mil dólares. Você vai pagar um milhão por uma casa de 500 mil? Aconteceu que, depois disso, as pessoas pararam voluntariamente de pagar suas prestações, o que gerou mais retomadas de bens e conseqüentemente mais desvalorização, bancos cheios de imóveis que nem de perto valem o que eles pagaram por eles - quando um banco financia um imóvel, ele paga o imóvel para o proprietário e depois cobra de você.
Nem mesmo as seguradoras e as reseguradoras (seguradoras das seguradoras) conseguiram fechar o buraco e aí estamos, frente a frente com a primeira grande crise do século 21.
O Brasil e o discurso do presidente Lula
O Brasil está imune a essa crise? É claro que não. Isso é coisa que o presidente é obrigado a dizer. Isso por que dizendo isso as bolsas caem 10% no dia, se ele não repetir isso à exaustão, cairá 50%. Mas o Brasil, doa a quem doer, não está imune à crise. Com certeza sofrerá menos que outros países, mas dizer que estamos imunes é ignorar que a economia é globalizada.
Desde a primeira guerra mundial, as economias do mundo estão acostumadas com um fluxo de dinheiro que parte dos EUA para o mundo todo. Somente durante a ocupação do Iraque, os EUA emitiram 1 trilhão de dólares. Isso sai do FED para os bancos privados norte-americanos que emprestam a maior parte para americanos (pessoas físicas e jurídicas), mas também emprestam muito para empresas de outros países. Ocorre que com a crise mundial, tudo que a impressora do Tio Sam imprimir, vai ficar nos EUA, que precisa salvar seus bancos e seu próprio mercado. O que explica, também, o aumento do dólar.
Dessa forma, falta dinheiro para o Brasil também. Produtores rurais brasileiros que sempre obtiveram empréstimos de bancos norte americanos já estão sofrendo os impactos. Os plantadores de algodão, por exemplo, já estão sem dinheiro para a próxima safra e cogitando migrarem para a produção de soja, cuja exigência de capital é menor.
De qualquer forma, os impactos só serão percebidos pela população em geral em 2009. Neste momento, apenas investidores, banqueiros e grandes empresários exportadores sentem algum impacto.
Tudo tende a piorar, mas realmente é preciso demolir uma casa para se construir outra melhor no lugar. Quem sabe esse crash anunciado não representará a construção de um modelo econômico mais justo e igualitário no qual nossos filhos e netos e bisnetos crescerão.